sábado, 19 de fevereiro de 2005

Almas Boas

«E vou de beco em beco, de bar em bar, de aroma em aroma,
de olhar em olhar - conheço esta cidade como conheço
as linhas das minhas mãos. Percorro-a, há anos, como se nessa
espera, um dia, acabasse por se me revelar uma outra
cidade, ou um rosto se me incendiasse nos dedos, ou uma
ruela apercebida ao fundo de um sonho se chamasse
Travessa da Espera, ou uma paixão qualquer, ali ao Príncipe
Real, me magoasse o coração...
É em estado de enamotamento que avanço noite dentro.
Amo esta cidade, secretamente, até ao romper da alba. Mas,
as cidades talvez se tenham metamorfoseado em desertos
onde nos habituámos a passear a melancolia.
Lisboa é, provavelmente, um desses desertos - o mais
melancólico que conheço.»
«Quis apenas contar a minha viagem, e dizer-te que não
houve redenção alguma em atravessar noites e cidades.
Não, não ha consolo, nem espaço suficientemente grande
para passear a melancolia de quem está vivo...»
Al Berto